Depoimentos

Cirurgia ortognática: Nunca pensei em passar por isto

Seria um dia como outro qualquer, caso eu não o começasse com uma dor-de-cabeça infernal. Era 23 de dezembro de 2001. Tenho que me lembrar da data porque estava em Portugal, tinha ido visitar minha família, pois nessa época minha esposa estava fazendo o o seu doutorado na Universidade de Coimbra, e os dois “putos”, é assim que se chama crianças em Portugal, viviam com ela.

- Ah! Pode ser uma sinusite.

Lá fui eu buscar um remédio para sinusite. Passaram-se alguns dias, a dor, muito forte, entre os ossos parietal e occipital me punham fora de controle, tanto assim, que no dia 3 de janeiro, optei por mudar a minha passagem que estava marcada para o dia 17 de janeiro para o dia 3.

Chegando em Salvador, conversando com meu sogro, médico aposentado, o mesmo me recomendou que fosse ver um médico em que ele confiava, se eu não me engano, chamava-se Rodolfo Teixeira. Ele era bem velhinho, mas me examinou de alta a baixo, por mais de uma hora, pediu alguns exames, incluindo uma tomografia computadorizada da cabeça e me disse, ao ler todos os resultados, que meu problema seria estresse, como se isto fosse algo que acontecesse apenas comigo.

A partir daí foi uma romaria, ou melhor, uma série de romarias a diferentes médicos e outros especialistas: psicólogos, acumpunturistas, vários, massagens, neurologista, infectologista, especialista em dor, e outros tanto. Baixei em Drª. Márcia com uma suspeita de que poderia ser algo ligado à oclusão ou mordida, ela junto com Dr. Navarro trabalharam duro para equilibrar o que podiam. Nesse meio termo, eu próprio detectei que tinha que ser algo ligado ao bruxismo, travava os dentes enquanto dormia. Usei um aparelho para dormir durante muito tempo, mas nada adiantou. Até que um dia, Drª. Márcia veio conversar comigo e deixou claro, que para mim haveria duas hipóteses, tentar tudo que pudesse ser feito ortodonticamente, sem perspectivas claras de solução do problema, ou partir para uma cirurgia ortognática.

- O quê ???

Foi o que eu disse. A explicação foi pior do que o nome, imaginar que alguém fosse colocar minha mandíbula para adiante, através de qualquer método, me pareceu algo improvável. O tempo passou e minha dor-de-cabeça não passava. Por volta de 2010, no final do ano, comecei a pensar na cirurgia. Drª. Vanessa Castro foi indicada, e estive com ela algumas vezes. Tão profissional e simpática como Drª. Márcia, deixou claro que esta seria uma solução, mas me indicou que eu tinha problemas respiratórios por conta da posição da mandíbula. Criei coragem, e parti para a cirurgia.

Deixei o quarto do hospital de olhos fechados, em total ausência deste mundo, desliguei-me completamente. Abri os olhos antes de entrar no centro cirúrgico ao ouvir Drª. Vanessa e só me lembro de ter dito quando acordei:

- Fizeram alguma coisa comigo ? Consigo respirar bem.

Acompanhado de uma eficaz auxiliar de enfermagem, Sara, e outros profissionais em fisioterapia e fonoaudiologia, passei a ingerir alimentos gelados nos primeiros cinco dias, peneirado, mas bebendo de um copo plástico, embora sempre babando. Fiquei muito pouco inchado, e no sexto-dia, já podia me alimentar com algo quente, desde que peneirado. Nenhuma dor eu tive, nada doía. Apenas quando se usa as borrachinhas para não falar mesmo, nos primeiros dias, é que doía, e tive que tomar analgésico para reduzir as dores. No mais, nada doía, nem ponto, nem nada. Nenhum sinal externo de que eu tivera uma cirurgia. A partir do quinto dia, mudei o tratamento de frio para quente. Três vezes por semana fisioterapia no começo, e diminuindo com o passar do tempo. Quinze dias depois já podia comer papinhas e não precisava mais da auxiliar de enfermagem. No total tive que ficar 54 dias em casa, saindo apenas para visitar a dentista ou fazer perícia médica. Com menos de dois meses viajei e comecei a trabalhar, mesmo ainda tomando alguns medicamentos e fazendo sessões de fisioterapia e fonoaudiologia ainda.

Mesmo sem nunca ter imaginado que iria fazer uma cirurgia de tal monta, a mesma foi tranquila, os profissionais envolvidos em meu tratamento foram sempre muito eficientes e recomendo a quem precisa de se conscientizar de que necessita mesmo fazer a cirurgia, entender que a disciplina é fundamental, tem que ser fiel ao estabelecido pelo cirurgião, e deixar o tempo passar.

Ah! Minha dor-de-cabeça ainda não passou totalmente, diminuiu, entretanto, sua intensidade, e como minha boca ficou mais volume tenho mais língua, e posso beijar melhor.